No Brasil, os animais silvestres são protegidos por lei. De acordo com a Lei nº 5.197/1967, todos os animais que vivem naturalmente fora do cativeiro são considerados patrimônio do Estado, sendo proibida sua captura, perseguição ou retirada da natureza sem autorização dos órgãos ambientais competentes. Essa proteção existe porque a fauna silvestre tem um papel essencial no equilíbrio dos ecossistemas e na conservação da biodiversidade.
Mesmo assim, ainda é comum que aves, pequenos primatas e outros animais silvestres sejam mantidos como se fossem animais domésticos. Em algumas situações, isso ocorre por tradição cultural ou falta de informação. Em outras, acontece por meio da compra legal de animais provenientes de criadouros autorizados. No entanto, mesmo quando existe respaldo legal, muitas questões importantes acabam sendo desconsideradas no momento da aquisição.
Animais silvestres não são animais domésticos
Animais silvestres possuem comportamentos, necessidades e ciclos biológicos muito diferentes daqueles de cães e gatos. Muitas espécies passam por períodos de muda de penas ou de pelos, mudanças hormonais e fases comportamentais mais intensas. Durante esses períodos, é comum que apresentem vocalizações fortes, comportamentos defensivos ou tentativas de fuga.
Além disso, alguns grupos de animais apresentam comportamentos particularmente desafiadores em ambiente doméstico. Primatas, por exemplo, como o macaco‑prego, são animais extremamente ativos, curiosos e inteligentes. Na natureza, passam o dia explorando o ambiente, manipulando objetos, procurando alimento e interagindo com outros indivíduos do grupo. Em cativeiro doméstico, esse comportamento pode se manifestar de forma difícil de manejar. Eles podem se tornar agitados, destruir objetos da casa, morder quando se sentem estressados ou frustrados e também defecar ou urinar em diversos locais, já que não possuem comportamento naturalmente compatível com a rotina de uma residência. Essas características tornam o convívio doméstico muito mais complexo do que muitas pessoas imaginam.
Além disso, muitos desses animais têm uma expectativa de vida longa. Algumas aves, por exemplo os louros—papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva)—podem viver várias décadas. Isso significa que a decisão de manter um animal silvestre em cativeiro exige compromisso por muitos anos, além de estrutura adequada, alimentação específica e acompanhamento veterinário especializado, o que acarreta em elevados custos.
Quando essas necessidades não são plenamente compreendidas, a convivência pode se tornar difícil. É nesse momento que muitos tutores percebem que não estavam preparados para lidar com um animal silvestre.
Riscos de zoonoses
Outro ponto frequentemente negligenciado na posse de animais silvestres é o risco de zoonoses, ou seja, doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos. Animais provenientes de cativeiros ilegais ou do tráfico raramente passam por qualquer tipo de controle sanitário. Essas estruturas clandestinas normalmente não seguem protocolos veterinários, quarentena, exames laboratoriais ou medidas de biossegurança. Além disso, muitas vezes não há qualquer informação sobre a procedência do animal, histórico de saúde ou condições em que ele foi mantido antes da venda. Esse cenário aumenta significativamente o risco de transmissão de patógenos, como bactérias, vírus, fungos e parasitas, que podem afetar tanto os tutores quanto outros animais domésticos. Assim, além de representar um problema para a conservação da fauna, o comércio e a manutenção irregular de animais silvestres também configuram um risco para a saúde pública.
O aumento das entregas voluntárias
Diante dessas dificuldades, muitas pessoas acabam optando pela chamada entrega voluntária, devolvendo o animal aos órgãos ambientais. Essa prática, prevista em normas brasileiras e estimulada para evitar punições em determinados casos, é uma alternativa importante para reduzir danos à fauna.
No entanto, ela também revela um problema recorrente: muitos animais entregues voluntariamente já passaram anos em cativeiro, o que compromete sua capacidade de sobrevivência na natureza. Eles podem ter perdido habilidades essenciais, como encontrar alimento, reconhecer predadores ou interagir com indivíduos da mesma espécie.
O desafio enfrentado pelos CETAS
Quando um animal é entregue ou apreendido, ele geralmente é encaminhado para os Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), estruturas autorizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, ou por instituições privadas. Esses centros têm como prioridade a recuperação e, sempre que possível, a reintrodução dos animais na natureza.
No entanto, muitos indivíduos não conseguem ser reabilitados. Animais que passaram muito tempo em contato com humanos podem apresentar comportamentos incompatíveis com a vida livre. Nesses casos, acabam permanecendo sob cuidados permanentes em mantenedouros, zoológicos ou outros tipos de centros de manejo de fauna autorizados.
Isso significa que, na prática, alguns desses animais passarão o restante de suas vidas em cativeiro, sem possibilidade de retorno ao ambiente natural.
Uma decisão que exige responsabilidade
A existência de mecanismos legais para criação ou guarda de animais silvestres não elimina os desafios envolvidos. Mesmo quando a aquisição ocorre dentro da legalidade, é fundamental compreender que se trata de espécies com necessidades complexas e comportamentos naturais que não podem ser totalmente adaptados à vida doméstica.
Por isso, antes de considerar a posse de um animal silvestre, é essencial refletir sobre as consequências dessa escolha. A falta de preparo pode resultar em sofrimento para o animal, sobrecarga para os centros de triagem e dificuldades para os órgãos responsáveis pela proteção da fauna.
Proteger a fauna também significa respeitar sua natureza
Animais silvestres pertencem aos ambientes naturais onde evoluíram e desempenham funções ecológicas importantes. A melhor forma de protegê-los é garantir que permaneçam nesses ambientes, contribuindo para o equilíbrio da natureza.
Promover informação, responsabilidade e respeito pela vida silvestre é um passo fundamental para reduzir o número de animais retirados da natureza e, consequentemente, diminuir o ciclo de abandono que ainda leva tantos indivíduos a viver permanentemente em cativeiro.
Ajude a proteger quem não pode se defender
O tráfico de animais silvestres destrói vidas todos os dias. Com seu apoio, o Sou Amigo da Fauna pode continuar atuando na proteção da biodiversidade brasileira, promovendo ações de conscientização, monitoramento e mitigação desse crime silencioso.
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