Skip to main content

Conhecida popularmente como kambô, kampo ou “vacina do sapo”, é uma secreção de pererecas do gênero Phyllomedusa, a qual integra as práticas tradicionais de povos indígenas da Amazônia. Entre povos como os Noke Koî, também conhecidos como Katukina, e os Huni Kuin, ou Kaxinawá, a substância é utilizada tradicionalmente em rituais e associada à prevenção e ao tratamento de diferentes problemas, além de estar relacionada à retirada da chamada panema (a má sorte na caça).

Esse conhecimento é resultado de uma relação construída ao longo de gerações entre povos indígenas e a biodiversidade amazônica. O problema surge quando esse conhecimento e o próprio animal passam a ser explorados comercialmente, fora de seus contextos tradicionais e sem que as comunidades que detêm esse conhecimento participem dos benefícios dessa exploração.

É nesse ponto que o kambô se relaciona diretamente com a biopirataria, o comércio ilegal de fauna e a perda da biodiversidade.

De conhecimento tradicional a produto comercial

O uso do kambô é antigo entre diferentes povos indígenas da Amazônia brasileira. Registros históricos já descreviam sua utilização por populações indígenas, onde hoje se localiza a Reserva Extrativista (RESEX) do Alto Juruá. Estudos antropológicos documentaram posteriormente seu uso entre os Katukina e outros povos da região.

Tradicionalmente, a secreção é aplicada sobre pequenas incisões na pele. Para algumas comunidades, ela está relacionada a práticas de cura, à purificação do corpo e também à preparação para atividades de caça. Entretanto, esse conhecimento ultrapassou os territórios e contextos tradicionais.

Com a popularização do kambô em áreas urbanas, a secreção passou a ser comercializada em larga escala pela internet e utilizada por pessoas que se apresentam como “especialistas”. A prática também se espalhou para outras regiões do Brasil e para outros países. É justamente essa transformação que acende um alerta.

Essa expansão também envolve a apropriação do kambô por públicos urbanos, predominantemente não indígenas, que passaram a incorporar a prática a discursos relacionados ao bem-estar, à saúde e à evolução espiritual. Embora essas experiências individuais possam ter diferentes significados para quem as procura, é importante reconhecer que a utilização de animais silvestres para atender a esse mercado pode resultar em sofrimento, ferimentos e, em alguns casos, na morte dos indivíduos coletados. 

Quando uma substância retirada de um animal silvestre passa a ser comercializada em larga escala, a demanda deixa de estar restrita às práticas tradicionais das comunidades que a desenvolveram e preservaram esse conhecimento. Com isso, o animal passa a ser visto também como um produto e uma fonte de matéria-prima comercial. 

 

Uma espécie ainda não ameaçada, mas que merece atenção

Pererecas do gênero Phyllomedusa, como a P. bicolor, são espécies arborícolas e noturnas, encontradas principalmente em florestas de mata clímax, próximas a riachos, igarapés e corpos d’água temporários, onde se reproduzem. Apesar de sua ampla distribuição, a espécie já sofre pressão decorrente da coleta para extração de sua secreção.

Segundo a avaliação de risco de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da International Union for Conservation of Nature (IUCN), a Phyllomedusa bicolor não está atualmente ameaçada de extinção. A coleta indiscriminada, porém, pode afetar algumas subpopulações e, durante a extração da secreção, alguns indivíduos podem sofrer ferimentos que podem levá-los à morte.

O cenário merece atenção especialmente porque a secreção possui potencial para a bioprospecção, sendo rica em alcaloides, aminas biogênicas e peptídeos. Esse interesse, somado à popularização do kambô fora dos contextos tradicionais, pode aumentar a demanda e, consequentemente, a pressão sobre as populações naturais.

A prática também chegou aos grandes centros urbanos, onde a chamada “vacina do sapo” passou a ser utilizada e comercializada. Essa prática é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em todo o território nacional, e não há comprovação científica dos benefícios atribuídos à “vacina”, além da existência de estudos sobre possíveis efeitos adversos.

Assim, embora a Phyllomedusa bicolor não esteja atualmente ameaçada de extinção, a expansão do uso comercial da secreção representa um motivo de atenção para a conservação da espécie. O problema não está apenas na morte, ou na retirada de indivíduos da natureza, mas na criação de uma demanda que pode transformar um recurso da biodiversidade em mercadoria e alimentar cadeias de comércio ilegal.

É justamente nesse ponto que a exploração do kambô deixa de ser apenas uma questão de uso de um recurso natural e passa a se relacionar diretamente com o tráfico de fauna, a biopirataria e a necessidade de proteger a biodiversidade amazônica.

O problema não é o conhecimento tradicional. É a sua apropriação e exploração ilegal

É importante diferenciar o uso tradicional do kambô de sua exploração comercial. Os conhecimentos relacionados à Phyllomedusa foram desenvolvidos, preservados e transmitidos por populações indígenas que vivem na região onde a espécie ocorre. A apropriação desse conhecimento tradicional dos povos originários sem autorização ou sem qualquer repartição dos benefícios é uma forma de biopirataria.

A biopirataria não envolve apenas retirar animais ou plantas de seus ambientes naturais. Ela também pode ocorrer quando conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade são apropriados e transformados em produtos, pesquisas ou oportunidades comerciais sem a participação adequada de seus detentores.

No caso do kambô, essa discussão ganha ainda mais importância porque envolve simultaneamente três elementos: um animal silvestre, um conhecimento tradicional e um mercado interessado em explorar comercialmente esse recurso.

Procedimento de extração da substância, onde os animais são submetidos a maus-tratos e péssimas condições de bem-estar.

Quando a demanda alimenta o tráfico de fauna

A expansão do comércio do kambô também cria uma pressão adicional sobre a própria espécie, a qual passou a ser alvo de pessoas interessadas na obtenção e comercialização de sua secreção. Segundo a avaliação de risco de extinção do ICMBio, a coleta indiscriminada pode afetar algumas subpopulações de P. bicolor, embora não provoque atualmente grandes declínios populacionais nem coloque a sobrevivência da espécie em risco. Ainda assim, a exploração ilegal representa uma pressão que merece atenção, especialmente diante da expansão do uso comercial da secreção. 

Neste âmbito, estudos e apreensões indicam que as Phyllomedusa passaram a ser visadas por pessoas interessadas na obtenção e comercialização de sua secreção. Investigações conduzidas pelo IBAMA identificaram diferentes etapas relacionadas ao comércio ilegal, incluindo áreas de captura dos animais, anúncios na internet e locais onde ocorre a aplicação da toxina.

Em 2019, uma operação do IBAMA e da Polícia Militar Ambiental de Santa Catarina investigou o comércio ilegal da chamada “vacina do sapo” em Concórdia, Santa Catarina. O caso envolvia a oferta, obtenção, transporte e comercialização da substância, além de tentativa de aplicação.

A investigação também indicava que o problema não estava restrito a uma única localidade. Entre os próximos alvos estavam pessoas não indígenas que comercializavam a substância em outras cidades brasileiras e no exterior.

Isso evidencia uma característica importante do problema: o comércio de fauna pode ultrapassar fronteiras e transformar uma demanda localizada em uma cadeia de exploração muito mais ampla.

Biopirataria e o crime organizado

A exploração ilegal da biodiversidade também pode estar relacionada a estruturas criminosas mais amplas.

Crimes ambientais estão entre as atividades criminosas mais rentáveis e podem apresentar conexões com outros delitos, como lavagem de dinheiro, contrabando, corrupção e outras formas de crime organizado.

Nesse contexto, o tráfico de fauna não deve ser tratado simplesmente como um problema de pessoas capturando animais isoladamente. A exploração da biodiversidade pode envolver redes de coleta, transporte, comercialização e distribuição e envolvimento com outros tipos de tráfico, como o de armas e drogas, pois compartilham o mesmo modus operandi e cadeias de logística.

A facilidade de transportar recursos naturais, inclusive utilizando compartimentos e objetos comuns, somada à extensão territorial do Brasil, dificulta a fiscalização e, quando esses produtos entram em circuitos comerciais nacionais e internacionais, a biodiversidade brasileira deixa de ser apenas alvo de uma captura local e passa a alimentar mercados amplos.

A perda também pode ser cultural

Existe ainda outra dimensão dessa exploração: os conhecimentos relacionados ao kambô fazem parte do patrimônio cultural de povos indígenas que desenvolveram formas próprias de compreender e utilizar a biodiversidade.

Quando esse conhecimento é apropriado, comercializado ou transformado em produtos sem a participação das comunidades que o preservaram, não ocorre apenas uma perda econômica. Existe também o risco de descaracterização, apropriação e perda de autonomia sobre um conhecimento tradicional.

A biopirataria pode representar justamente essa dupla apropriação: a retirada de recursos genéticos da biodiversidade e a apropriação dos conhecimentos associados a esses recursos.

Por isso, proteger as pererecas Phyllomedusa também significa proteger as comunidades e os conhecimentos tradicionais relacionados à espécie.

Proteger o kambô é proteger a biodiversidade

O caso do kambô mostra como a exploração da fauna pode assumir diferentes formas.

Uma espécie pode ser retirada da natureza para abastecer o comércio ilegal. Sua secreção pode ser comercializada. Seu conhecimento tradicional pode ser apropriado. E, quando essa demanda ultrapassa as fronteiras nacionais, toda essa cadeia pode adquirir uma dimensão internacional.

O desafio, portanto, não está em criminalizar ou desvalorizar os conhecimentos tradicionais que fazem parte da história dos povos amazônicos. Pelo contrário. Está em impedir que esses conhecimentos e a biodiversidade sejam explorados em larga escala. 

A conservação da fauna precisa considerar não apenas o animal que está sendo retirado da floresta, mas também as relações culturais e sociais construídas em torno dele.

No caso do kambô, proteger espécimes, como a Phyllomedusa bicolor, significa combater sua captura e comércio ilegal, reduzir a demanda que alimenta o tráfico de fauna e, ao mesmo tempo, reconhecer e proteger os conhecimentos tradicionais dos povos que historicamente convivem com essa espécie.

A biodiversidade amazônica não é uma fonte inesgotável de produtos para o mercado. Quando um animal silvestre vira mercadoria, a floresta e as comunidades que dela dependem também pagam o preço.

Ajude a proteger quem não pode se defender

O tráfico de animais silvestres destrói vidas todos os dias. Com seu apoio, o Sou Amigo da Fauna pode continuar atuando na proteção da biodiversidade brasileira, promovendo ações de conscientização, monitoramento e mitigação desse crime silencioso.

Faça parte dessa rede de cuidado com a fauna. Cada contribuição faz diferença!

Chave PIX: souamigodafauna@institutolibio.org.br

Seja um Amigo da Fauna. A natureza precisa de você.

 

 

 

Referências:
  1. BASTOS, Rogério Pereira et al. Phyllomedusa bicolor: avaliação do risco de extinção. Brasília, DF: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, 2025. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br. DOI: https://doi.org/10.37002/salve.ficha.21403.2. Acesso em: [dia mês ano].
  2. LABATE, Beatriz Caiuby et al. (org.). Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008. 440 p.
  3. LIMA, Edilene Coffaci de; LABATE, Beatriz Caiuby. “Remédio da ciência” e “remédio da alma”: os usos da secreção do kambô (Phyllomedusa bicolor) nas cidades. Campos: Revista de Antropologia, Curitiba, v. 8, n. 1, p. 71–90, 2007. DOI: https://doi.org/10.5380/cam.v8i1.9553.
  4. PANCHERI, Ivanira. Biopiracy: reflection about the establishment of a specific criminal offense. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 108, p. 443–487, jan./dez. 2013.
  5. SILVA, José Alessandro Cândido da et al. Biopirataria e a apropriação indevida da sociobiodiversidade: o caso da vacina do sapo. In: Ciências Ambientais na Amazônia II. [S. l.]: Dialética, 2024.